sexta-feira, 6 de março de 2015

Peguei um trânsito de mais de um mês para te dar Parabéns!

(encaixe aqui um barulho de máquina de escrever)... Camilla, nascida e residente de São Paulo, capital, há quase 28 anos. 
Já fiquei presa em enchente, nunca fui assaltada, já trabalhei em um lugar que levava mais de duas horas para chegar, já tomei multa por trafegar na faixa de ônibus (tenho uma ótima desculpa e testemunha para isso, não sou do tipo folgada-espertona), um ônibus já bateu no meu carro, já perdi compromissos por demorar muito mais que o previsto para chegar, já fui a pé a lugares muito distantes por causa do trânsito, já dormi no metrô e perdi a estação que tinha que descer, já tropecei e rolei a escada de uma estação de metrô, já precisei assistir meu programa favorito no GPS do carro porque tinha acabado a luz em casa, com muita dor no coração já vi uma pessoa fazendo cocô na rua por não ter acesso a um banheiro (o mínimo de dignidade que um ser humano deveria ter), já vi uma pessoa entrar no trem mancando, sentar no banco preferencial e sair andando normalmente depois, já vi briga de trânsito, brigas de casais no transporte público e já ouvi inúmeras histórias que nunca saberei o final porque a pessoa que contava para uma outra (que não era eu) desceu em alguma estação ou ponto antes do meu!

Morar em São Paulo é como ter um relacionamento conturbado, cheio de brigas por ciúmes e de reconciliações que transbordam em amor enlouquecido! Te falta água, te falta luz, te falta paz, mas te sobra hot-dog a qualquer hora da madrugada, te sobram shows a preços acessíveis de boas bandas em todos os finais de semana, te sobram opções de lugares para conhecer, te sobram restaurantes bacanas, te sobram pessoas a conhecer, profunda ou superficialmente.

Do seu vizinho, você conhece o cocô do cachorro, mas atravessa a cidade para encontrar com amigos que trabalham em um mesmo lugar mas moram espalhados pelos 4 cantos da capital paulista. Perde longos minutos escrevendo um e-mail para a pessoa que trabalha a duas salas depois da sua ao invés de ter um contato pessoal, porque todo paulistano já nasceu desconfiado e precisa formalizar suas palavras, seja por exigência da empresa seja por cisma pessoal. Você logo percebe quando um turista é paulistano, pois ele pede para um morador local tirar uma foto sua com a esposa em um marco da cidade do interior e, enquanto ele abraça a mulher, já fica pronto para correr caso o calmo interiorano resolva fugir com o celular. Menos pelo valor afetivo com as fotos da última viagem e mais por ter de ficar alguns dias sem consultar o outlook e/ou redes sociais.

Paulistano vive na correria não por escolha própria, mas porque a cidade exige isso. Se você não corre, perde o ônibus, perde o farol aberto, perde a vaga no estacionamento lotado, perde a hora do encontro que pode ser com o homem da sua vida! O metrô não te espera com as portas abertas para entrar e menos ainda para sair, é preciso correr! O trânsito é a única coisa parada porque os carros ainda não voam. Talvez paulistano devesse nascer com asas – melhor não!

Mas nem só de pão-listano vive o homem São Paulo (por favor, não pare de ler o texto depois dessa piada. Sim, piada!). A cidade nos brinda com a diversidade todos os dias! Mulheres de véu passam em uma rua, homens com quipá atravessam outra, todos os sotaques se encontram em uma conversa em um bar na esquina (não sei porque, mas acreditamos que bar bom, fica em alguma esquina), tradições de outros países dividem uma sala de escritório, um micro-ônibus comporta 21 pessoas e milhares de trajetórias diferentes até chegar à capital paulista.
E São Paulo está preparado para receber todo o tipo de gente, todos os paladares de outras culturas, te prepara um bairro – como a Liberdade – para que você se sinta em casa, te abraça e te xinga como todo bom namorado bipolar. Te dá chuva, sol, arco-íris, frio, calor, folhas caem e tudo isso em 24 horas! São Paulo é cheia das surpresas, seja um cocô de pombo, seja um ônibus vazio! Surpresa é surpresa!

O aniversariante é o Rio, mas como não vivo lá, resolvi escrever sobre o que vivo aqui. E que troquei durante um ano, mas voltei correndo depois de não conseguir sair em uma noite de natal porque nem o posto de gasolina estava aberto. Obrigada pelos abraços de hoje, como os dois ônibus vazios para chegar até o serviço e por esperar eu retornar do almoço para mandar a chuva!


Nota da Autora: não citamos política nem aprofundamos ao tema “falta de água” porque eu não quis!  

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Chegamos bem até aqui?

Um dia dessa semana eu cheguei em casa e tinha uma criança brincando na rua, um loirinho andando de bicicleta sozinho, já deve ter uns 3 anos. Sorri com a cabeça pendendo para a esquerda enquanto o via pedalar com pressa, olhando um pouco pra frente, um pouco para o lado, admirando e desconfiando da plateia. Ele largou a bicicleta no meio da rua e voltou andando, de um jeito gozado que me fez lembrar que eu já estive no lugar dele.

Com pouco mais de idade, eu brincava junto com a sua mãe naquela mesma rua. Não da mesma coisa porque nunca soube muito bem andar de bicicleta. Mas brinquei e briguei durante muitos anos naquela travessa sem saída, tranquila naquela época, sem o prédio que hoje ocupa o terreno que “na minha época” abrigava dois ou três galpões abandonados que invadíamos para empinar pipa e roubar amora. Também não tinha o condomínio que hoje fica no lugar da casa da minha avó e da vizinha, uma amiga, com quem conversava através de um cano na parede quando ficava de castigo.
A rua já não é mais a mesma, parece que ficou apressada, parece que perdeu a paciência com que aceitava as crianças entrando na casa de vizinhos idosos e bravos pra se camuflar na noite durante o esconde-esconde. Parece que ela envelheceu junto com a gente e hoje sente dores e desânimo quando uma criança pede pra brincar com ela.

Lembrei do primeiro selinho em uma brincadeira de verdade-ou-desafio, de quando soltei um pum na frente de todo mundo, de quando cai pra trás e estava de saia quando brincávamos de “Pézinho” (PRIMEIRO – ZERINHO!), lembrei de cantar música brega e conhecer Legião Urbana, de ver vizinhos mudando e voltando ou só trocando de casa, de fazer aniversário de bonecas, de gastar um filme inteiro de 36 poses no aniversário da boneca, de quando a menina mais velha nos contou que tinha menstruado e por isso não ia tomar sorvete, lembrei de quando não lavei minhas calcinhas e minha mãe as colocou em um balde lá no portão porque eu não entrava de jeito nenhum, lembrei que queria ser estilista e estudar em Paris, lembrei de quando caí de patins e cortei a perna e parecia que estava tendo uma edição do Lollapalooza na minha casa de tanta gente que juntou lá, da primeira vez que lavei um chão de cozinha quando fui chamar uma amiga pra brincar depois do almoço e fui ajudar pra ir logo, lembrei de quando um menino me disse  que em mais 3 primaveras ele me procuraria, não sabia o que isso significava, assim como não sabia o que diziam as músicas dos Mamonas que os meninos dublavam quando fazíamos um “show” em casa e uma vez foi tão engraçado que um deles fez xixi nas calças! Lembrei que eu tinha planos e sonhos pra uma vida inteira, mas não lembro quais eram.

Passaram muito mais que 3 primaveras, o menino nunca me procurou (ufa) e parece que toda essa história é de um outro alguém, mas não minha! A gente cresce e parece que só lembra de ser adulto. Em um mês faz 10 anos que tirei minha carteira de motorista, em dois anos, faço 3 décadas de vida e não me dá medo, nem arrependimento! Aproveitei bem cada fase da minha vida, brinquei de Barbie até uns 14 anos, não queria que essa fase passasse. Mas passou e parece que ficou muito distante! E hoje sou impaciente como a rua que moro, na segunda-feira já espero pela sexta e na sexta já lamento porque em 3 dias será segunda novamente.

Nessa onda de eventos do Facebook (a qual eu não quero que passe jamais), participei de um que dizia ser um Manifesto Para Sair Com a Roupa Amassada Pois A Vida Passa E A Gente Nem Vê! Depois de rir, de rir bastante, pensei que é verdade! Ela passa! E se a gente vive esperando pelo próximo dia, ele não chega nunca!


Uma vez li uma frase bacana que era “A criança que você era teria orgulho de você hoje?”. A minha, primeiro me zuaria por ter ficado gorda e acho que pediria pra ir com mais calma, na comida e na vida! E perguntaria por que agora eu tenho TV no quarto, se eu ainda sei fazer embaixada, por que antes eu ia até o metrô Tiradentes a pé e agora vou de carro até a rua de cima e onde está todo mundo que cresceu com ela. Só sei responder às três primeiras com precisão.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Vou chegar às 19:34 e vou desligar porque tem um policial a 300 mts.

Já é de conhecimento de todos que o celular nos aproxima de quem está longe e nos distancia de quem está perto – com exceção dos seus colegas de sala com quem você tem um grupo no Whats e fica comentando sobre toda a aula, menos sobre a matéria.
Já existe um trilhão de tirinhas sobre mesas de jantar com famílias com a cara grudada no aparelhinho e vídeos fofos de animais que pedem atenção enquanto os donos estão hipnotizados por uma tela. 40% dos divórcios na Itália já utilizam o Whatsapp como prova no processo. Pessoas entre 18 e 24 anos checam seus aparelhos a cada 10 minutos, em média. 80% das pessoas dormem com o celular ao lado da cama. Aquela cena de filme ou novela em que a pessoa acorda passando a mão no lado da cama vazio em que deveria estar seu companheiro que levantou mais cedo e está enrolado em um lençol observando o quebrar das ondas pela janela do quarto de hotel enquanto toma uma xícara de café e pensa sobre o futuro incerto do casal foi substituída por pessoas que despertam no meio da madrugada, caçam o celular embaixo do travesseiro e levantam em um sobressalto quando veem que o cônjuge está online no Whats App àquela hora.

As coisas mudaram e hoje, ao invés de solicitar uma xícara de açúcar ao vizinho você tenta descobrir a senha do wifi usando a data de nascimento da família toda que você descobriu através do facebook. E eu não deveria achar isso ruim! Não sou muito fã de conversar com pessoas sem um motivo especial, assim, só pra comentar sobre o tempo. Me formei conversando com os números e, graças a Deus, eu trabalho conversando com o Excel e sistemas o dia inteiro. A hora que toca o telefone da minha mesa eu tenho uma mini parada cardíaca pensando no tempo que vai levar aquele telefonema e quantas palavras eu vou ter que falar. Mas começo a achar que todas essas facilidades estão transformando todo mundo em gente assim, como eu!

Antes, quando você queria chegar em algum lugar que nunca tinha ido, consultava o guia, imprimia um mapa, mas sempre acabava pedindo informação pra alguém em um farol fechado qualquer. Hoje temos o Waze e podemos ficar com os vidros fechados da hora que saímos de casa até a chegada ao destino que ele indicará que está à esquerda.
E pra tirar foto em um país diferente você tinha que se virar na mímica para pedir a ajuda de um local. Hoje existem suportes que permitem tirar foto de umas 49 pessoas juntas e ainda olhar como a foto vai sair, se está aparecendo todo mundo ou não e não esperar pra descobrir que na foto mais importante do passeio a tia Clara fechou os olhos enquanto o tio Luis ficava sem parte da cabeça.
Se você quer saber sobre a rota de um ônibus não precisa mais perguntar à ninguém do ponto, basta consultar em um aplicativo específico. E nem solicitar a ajuda do cobrador com o ponto em que precisa descer pois o mesmo programinha te avisa.
E também não é mais necessário pedir a opinião da vendedora sobre uma roupa que você está em dúvida se leva ou não! Manda a foto pra um grupo do Whats que tem umas 15 amigas e elas te ajudam a decidir.
Uma vez eu estava na porta da faculdade e passou um carro tocando uma música que eu queria saber há tempos qual era e quem cantava. Não tive dúvida e gritei perguntando. “Eu sou seu” foi a resposta de um dos mocinhos levemente embriagado me respondendo que era a música I’m Yours de Jason Mraz. Hoje não seria necessário esse mico porque existem aplicativos que identificam a música, o artista e várias outras informações através do som ambiente.
Até pra conhecer gente você não precisa sair do sofá de casa.


O mundo está aí evoluindo e parece que está nos fazendo retroceder a homens das cavernas que só se comunicam através de imagens e grunhidos. Não acho que tecnologia seja algo ruim por si só, nós que a tornamos ruim quando usamos para o nosso bem/isolamento.  Eu sou uma das que está ferrando com tudo! Durmo com o meu celular embaixo do travesseiro, almoço com ele na mesa, obedeço mais o Waze que os meus pais, comento programas pelo facebook mesmo com gente na sala, me policio pra conseguir ver um filme todo sem dar pause para trocar mensagens e o pior de tudo é que isso está me fazendo perder o que tenho de melhor: Minha ranzinzice! Agora é extremamente comum não conversar com ninguém! Ainda bem que descobri que me mantenho fora da média: confiro o celular a cada 2 minutos (e ninguém precisa tocar no assunto que eu não tenho de 18 a 24 anos).

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Sua neura foi atualizada com sucesso!

É o assunto mais falado da semana e, claro, não poderíamos deixar passar em branco por aqui, né? Por que, como vocês sabem, a gente não deixa nenhum assunto popular passar desapercebido desde o mendigo gato que agora já tem profissão e filho! E pensar que um dos nomes que pensei para este blog foi “Vamos falar do que estão falando!”... não teria a mínima paciência para atualizar diariamente com as notícias bombásticas do Ego, como, por exemplo, o sovaco peludo da Grazi (antes o sovaco que o coração, como o da pessoa que reparou na meia dúzia de pelo recém-saído do orifício pelal!) e menos paciência ainda para escrever “Vamos Falar Do Que Estão Falando” toda vez que fosse citar o blog!
 
Enfim, o ex-possível-nome não importa, nem o sovaco de ninguém, nem o Ego, nem os pelos, nem céu, nem terra, Neymar... o tsunami que envolveu as redes sociais desde ontem foi a conversão do Whats App ao X-9ismo.

Eu lembro quando começou esse negócio de identificador de chamada. Eu e toda a minha habilidade em conhecer tecnologia, achávamos que quando você ligava para alguém aparecia o seu nome, independente do lugar onde você estava. Até que um dia meu irmão pediu para eu ligar para um amigo dele e ele atendeu gritando “e aí, viado!”. Fiquei confusa, não quanto a minha orientação sexual, mas pensando “comassim o identificador não percebeu que era EU e não o meu irmão ligando do telefone de casa, o qual estava registrado no celular do menino como “Careca”?!

Afinal, por que essa necessidade de saber quem está te ligando surgiu? Alguém morreu porque atendeu um telefonema que não sabia de quem era? As pessoas eram mais livres, podiam ligar 42 vezes para o recém-ex-namorado sem que ele soubesse da necessidade da sua internação! A Grazi mesmo poderia passar um trote na Isis do conforto do seu sofá, falando pra ela ficar ligada na fita que o boy já tinha dona e uma filha prá criar e a Ísis nem saberia quem era! Aaaah, os trotes! Como era bom ligar para 87 números de desconhecidos perguntando se poderia ver se tinha um carro gelo parado em frente à sua casa – não? Então já derreteu! – sem que ligassem de volta e pedissem para falar com o seu pai!

E agora, a neura de pessoas obcecadas por controle é alimentada a cada atualização desse tipo! Bom eram os SMS que você sempre podia dar a desculpa “putz, a Tim é uma droga! Nem to recebendo mensagem!”, bom era quando você tinha o livre arbítrio de escolher se a pessoa poderia saber que estava sendo ignorada ou não! Bom era o MSN que, quando você era o ignorado, podia fazer do computador da pessoa Hiroshima e Nagasaki chamando a atenção!

E agora, acho que todas as mortes que não aconteceram quando não existia identificador de chamada, tem grandes chances de acontecer! Agora, ao invés de frio na barriga esperando uma resposta de uma carta enviada há semanas, tem fogo nas ventas porque a pessoa leu a mensagem há 2 minutos e ainda não te respondeu!
Optem por viver de forma mais leve, sem pressão, sem chatice, sem bloqueio...  não dê dois cliques na mensagem que você mandou, não clique em info e não fique pensando nas inúmeras possibilidades que levaram seu namorado a ler a mensagem e não responder... você vai achar que ele está com outro alguém, enquanto ele está no banheiro, entrou no whats rapidinho e voltou a jogar Candy Crush!


Menos carência pessoal, menos controle, menos expectativas e mais surpresas! E, aproveitando, menos convite de jogos de fazenda e mais vida no Candy Crush pra mim – que jogo no banheiro!